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Publicado em 21 setembro, 2026
Foto: Mirela Azevedo
Parceria com unidade do Senai desenvolve tecnologia para aumentar teor de pilocarpina, substância usada no tratamento de glaucoma e outras doenças
Um projeto apoiado pela Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) amplia a produção de jaborandi no Brasil para fortalecer a cadeia de um insumo essencial para a indústria farmacêutica no mundo. Desenvolvido pela empresa Centroflora com a Unidade Embrapii Tecnologias em Química Verde, do Senai, o projeto busca aumentar a produtividade da planta e o teor de pilocarpina, substância utilizada em medicamentos para tratamento de glaucoma e outras doenças.
O trabalho começa no campo, em Parnaíba, no semiárido do Piauí, onde o jaborandi, planta nativa de áreas úmidas da Amazônia, foi adaptado para cultivo em condições secas. A domesticação da espécie exige controle rigoroso de ambiente, irrigação e manejo adequado. “A nossa estrutura, que é composta por um sombrite, reduz a intensidade solar em 50%. Então, aqui tem 50% menos incidência solar do que ali fora. Então, ele cria um clima bem mais frio, mais favorável, que é exatamente isso que a semente precisa para se desenvolver em uma planta saudável”, explica a engenheira agrônoma da Centroflora Letícia Silva.
Mas o avanço da produção depende de fatores que vão além do cultivo. O teor de pilocarpina, principal composto extraído da planta, varia de acordo com condições ambientais e biológicas, o que exige pesquisa para garantir produtividade e qualidade. “Os teores de pilocarpina variam ao longo do tempo, em função do clima, da estação chuvosa. Nós identificamos que a microbiota do solo de áreas nativas é significativamente diferente da domesticada. Então, uma das chaves de aumento da produtividade é prestar atenção a todas as interações que acontecem entre planta e solo”, afirma o químico analítico Giovanni Pedroso, da Unidade Embrapii no Senai.
A pesquisa busca reproduzir, no cultivo controlado, as condições naturais que favorecem a produção do alcaloide. O objetivo é garantir regularidade no fornecimento da matéria prima para a indústria farmacêutica, que depende de altos níveis de pureza.
Além do cultivo em fazendas, a cadeia produtiva envolve extrativistas da região Norte, responsáveis pela coleta do jaborandi em áreas nativas, seguindo práticas de manejo sustentável. “A planta a gente pode colher no máximo 50 centímetros dela para não matar e para ela florar mais. Onde se corta, cria outros galhos. É importante também não haver quebra com a mão, não arrancar a planta”, explica a farmacêutica da Centroflora Luciene Vasconcelos.
Depois da colheita, as folhas passam por um processo industrial complexo para extração da pilocarpina, que exige controle rigoroso de temperatura, pressão e uso de solventes. “Esse é o extrator, que é onde a gente coloca a folha e o solvente passa pela folha pra extrair o ativo, que é a pilocarpina. Aqui a gente tem que controlar temperatura, pressão, porque se a gente põe uma temperatura maior, aparecem outras impurezas”, afirma Luciene.
O controle de qualidade é feito em laboratório, com equipamentos capazes de medir a concentração da substância e identificar resíduos do processo. “Esse equipamento aqui chama HPLC, nele é que a gente faz a quantificação do teor de pilocarpina. Aqui é todo o controle de qualidade”, explica o químico industrial Nicolas Martins. Com alto grau de pureza, a pilocarpina é exportada para dezenas de países e utilizada principalmente na fabricação de colírios para tratamento de glaucoma, além de outros medicamentos. “Ela pode ser vendida no mínimo em 80 países. A gente tem registro na Coreia, na China, no Japão, Estados Unidos e em toda a Europa”, afirma Luciene.
Para os pesquisadores envolvidos, o projeto mostra como a articulação entre diferentes áreas do conhecimento é essencial para transformar biodiversidade em produto industrial de alto valor agregado. “É necessário que o agrônomo, o biólogo, o químico, o biotecnólogo unam forças para apontar caminhos que vão levar ao conhecimento que pode ser aplicado na indústria. E a Embrapii tem a função de viabilizar que esses grupos atuem em projetos dessa escala”, afirma Giovanni Pedroso. A iniciativa reforça o papel da pesquisa aplicada no aproveitamento sustentável de espécies nativas e na inserção do Brasil no mercado mundial da indústria farmacêutica.
Sobre a Embrapii
A Embrapii é uma organização social que atua em cooperação com Instituições Científicas e Tecnológicas (ICTs), públicas ou privadas, para atender ao setor empresarial e fomentar a inovação na indústria. Para isso, conecta centros de pesquisa e empresas, compartilhando os custos da inovação ao aportar recursos não reembolsáveis em projetos que levem à introdução de novos produtos e processos no mercado. Para ter acesso ao modelo, a empresa deve apresentar seu desafio tecnológico à Unidade Embrapii com a competência técnica que se enquadra às necessidades do projeto.
Confira as Unidades e os Centros de Competência credenciados pela Embrapii.